Família Charters d' Azevedo
Introdução
O 1º Visconde de S. Sebastião
O Ten Cor W. Charters
A Vila Portela
- O 1º Proprietario
- O 2º Proprietário
- O 3º Proprietário
- A expropriação
- Projectos futuros
Genealogia
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Sitio dedicado à família Charters d 'Azevedo, nomeadamente ao ramo do filho mais novo do 1º Visconde de S. Sebastião e à casa (vila Portela) que ele mandou construir em Leiria.  Dá acesso a várias bases de dados genealógicas de mais de 3400 nomes dos seus descendentes e ascendentes e alguns colaterais.

 

Introdução

A família Charters d ' Azevedo "nasceu" a partir do casamento, em Leiria, de D. Isabel Charters, filha do Ten-Cor William Charters, com José Maria Henriques de Azevedo, mais tarde o 1 Visconde de S. Sebastião . A todos os 10 filhos deste casal  (que nasceram na sua casa nas Cortes) foi dado o apelido "Charters Henriques de Azevedo", mas aos seus netos o "Henriques" caiu ficando "Charters d'Azevedo" ou ainda somente "Charters".

 

Como nasce o apelido

Segundo Francisco de Vasconcelos em "A Nobreza do século XIX em Portugal"  (ed. do Centro de Estudos de Genealogia, Heraldica e História da família da Universidade Moderna do Porto,  Porto 2003, pp 97), as familias nobres mudam de apelido entre 1850 e meados do século XX e este "fenómeno ocorreu sobretudo  em casas nobres fundadas antes do Liberalismo, nas quais, por obrigação imposta aos morgados em que sucederam, o nome completo - usado apenas em documentos oficiais e formais, tinha em geral quatro apelidos. De tão generalisado, o fenómeno acabou por se tornar uma caracteristica típica dos nobres que no entanto, no seu dia a dia, e (como se diria hoje) a nível profissional, eram chamados e assinavam apenas com um nome próprio e o primeiro (ou os dois primeiros) apelidos da família ou da varonia, e depois os restantes. Por isso Fontes Pereira de Melo era o Fontes, ...., Salvador Correia de Sá e Benevides Velasco era Salvador Correia, ... e João Ferreira Franco e Freire Pinto de Castelo Branco apenas João Franco".

De referir ainda que antigamente o nome era composto como o fazem ainda hoje os espanhois. Por exemplo, que Antonio de Oliveira Salazar tinha como primeiro  apelido o do pai, e por último o da mãe por que foi mais conhecido. Sobre a formação dos apelidos em Portugal ver ainda : Carlos Lourenço Bobone “Os apelidos em Portugal” na Revista Raízes & Memórias,  nº 3, Outubro 1988, pag 83, ed. da Associação Portuguesa de Genealogia

Francisco de Vasconcelos escreve ainda que " Na alta nobreza antiga, a forte imagem simbólica do seu nome tradicional (que nem sempre era o da varonia primitiva, note-se) terá permitido a este resistir mais facilmente sobretudo resistir ao novo costume, mantendo-se até hoje como apelido base da linhagem".

No caso da família "Charters d'Azevedo" pode afirmar-se que optando por um apelido, mais sonante e "diferente" conseguia manter a imagem  da família, mais forte e respondia assim á forma como já eram conhecidos os filhos do 1º Visconde (ver por exemplo como era tratado o Coronel Guilherme Charters Henriques de Azevedo, ajudante às ordens do Rei D. Carlos I: era conhecido pelo Cor Charters d'Azevedo - pag 92 in "The Braganza Story" (publicado em 1999 pelo The Britsh Historical Society of Portugal) ou ainda no "Equador" de  Miguel Sousa Tavares (Ed Oficina do Livro, Lisboa 2003), pp36.

Notar que  Manuel de Sousa em " As Origens dos Apelidos das Famílias Portuguesas" (Ed SporPress, Mem Martins 2001), pp. 81,  afirmar que "a origem do apelido Charters é inglesa e que entrou no nosso país na pessoa do Tenente-Coronel William Charters"

Um exemplo de como foi adoptado o apelido

Acima, um cartão enviado pela Rainha D. Amélia ao então Conselheiro da Família Real, Guilherme Charters Henriques d'Azevedo (fotografia acima à direita com a copia do envelope) tratando-o, com amizade, de "Charters". 

 

Oficial do Estado Maior (fotografia ao lado em uniforme militar), foi desde  28.5.1890 Oficial às Ordens de El-Rei D. Carlos e a partir de 2.8.1894 Ajudante de Campo do mesmo Rei e mais tarde de D. Manuel II. Reformado a 16.9.1909 como General de brigada, foram-lhe conservadas as honras de "Ajudante de Campo de Sua Majestade El-Rei" , 

 

Depois de 1910, e por um período de cerca de 2 anos, foi Administrador da Casa de Bragança.

 

Este tratamento, de "Charters d'Azevedo" e não de "Henriques de Azevedo", é mais uma prova ao que acima se afirmou sobre a criação do apelido.

O Gen Guilherme Charters d'Azevedo faleceu na sua casa, em Lisboa, uma vivenda no nº 77 da Av. Casal Ribeiro, esquina com a Praça Duque de Saldanha, a 8 de Agosto de 1928 (está lá hoje parte do "Atrium").

Este imóvel, representado ao lado, vem referenciado no Catalogo da Exposição Retrospectiva da obra do arquitecto Raul Lino realizada em Lisboa, de Outubro a Novembro de 1970. Raul Lino nasceu em Lisboa a 21 de Novembro de 1879, e faleceu em Lisboa em 1974.

O Gen Charters d'Azevedo, devido ás suas funções acompanhava o Rei D. Carlos em todas as suas actividades. Na fotografia abaixo reconhece-se o rei D. Carlos I e na última fila, do lado direito, de chapeu está o Ajudante de Campo, o então ainda Coronel, Guilherme Charters Henriques d'Azevedo, filho do 1º Visconde de S. Sebastião. A fotografia está datada de 1906.

 

 

Berwick-upon-Tweed - origem do Ten Cor William Charters

O Ten Cor William Charters, pai de D. Isabel Charters, 1ª Viscondessa de S. Sebastião, é de origem escocesa, de Berwick-upon-Tweed


Berwick-upon-Tweed (pronuncia-se “Berrick”) situa-se no condado de Northumberland e é a cidade mais a norte da Inglaterra. Está situada no estuário do rio Tweed, na costa este da Inglaterra. Se bem que nesta região o Tweed faz a fronteira entre a Escócia e a Inglaterra, Berwick está localizado a norte do rio, no lado escocês, e a actual fronteira afasta-se do Tweed, para norte e mantém a cidade de Berwick em Inglaterra. Em 1990 a cidade tinha uma população de pouco menos de 14.000 almas.

 

Berwick é uma cidade comercial e um porto de mar, e a sua principal actividade é a pesca do salmão. As outras industrias existentes em Berwick são a construção naval, , industria metálico-mecanica, produção de adubos e a manufactura do “tweed”.

 

A sua equipa de futebol, os Bewick Rangers F. C. Joga na liga Escocesa, o que é uma excepção, dado a cidade estar hoje em Inglaterra.

 

Entre 1147 e 1482 a cidade pertenceu, ora à Escócia, ora à Inglaterra mais de 30 vezes. Em 1482, foi considerada sobre a tutela de Inglaterra pelo Rei Eduardo IV, sem que, no entanto, fosse integrada na Inglaterra. Depois do Rei James da Escócia que também se tornou James I da Inglaterra, a cidade nunca mais voltou a ser “escocesa”

 

A cidade está na margem norte do Rio Tweed e consequentemente a região escocesa se chama Berwickshire. Mantém-se ainda o nome desta região, mesmo sem lhe pertencer a cidade de Berwick. No reinado da Rainha Isabel I, fizeram-se grandes investimentos nas fortificações da cidade que hoje se podem ver em grande parte.

 

Vários documentos oficiais de antes de 1885 referem “Inglaterra, Escócia e a cidade de Berwick-upon-Tweed”. Um desses documentos foi a declaração de guerra à Rússia em 1853, mas a cidade não foi citada no tratado de paz de 1856 – será que existe ainda uma guerra entre Berwick-upon-Tweed e a Rússia? . O problema surge porque a Rainha Vitoria assinou a declaração de guerra como “Vitoria, Rainha da Grã-bretanha, Irlanda, Berwick-upon-Tweed e todas as Possessões Britânicas”. Mas quando o Tratado de Paris (1856) foi assinado o termo “Berwick-upon-Tweed” não estava presente. Em 1966 um alto funcionário Soviético encontrou-se com o Presidente da Câmara de Berwick-upon-Tweed, o Conselheiro Robert Knox, e um tratado de paz foi formalmente assinado. O Presidente da Câmara Kox terá dito na altura “Por favor diga ao povo Russo que a partir de agora podem dormir descansados”.

 

Uma colecção de fotografias panoramicas de Berwick upon Tweed podem ser vistas em: http://www.exploreberwick.co.uk/. Cada fotografia panoramica abre-se em janelas independentes e levam um certo tempo a carregar dependendo da velocidade de conexão. No entanto, recomenda-se a visita a este "sitio".

 

 

Leiria - Origem da família Henriques de Azevedo

 

 

Leiria tem uma história muito antiga, ha quem diga que era o Collipo no tempo dos Romanos mas outros afirmam que o Collipo era a 15 km numa povoação que se chamou depois S. Sebastião do Freixo. Depois de ter estado nas mãos dos Mouros. Foi capturada pelo D. Afonso Henriques, 1º Rei de Portugal no século XII. Em 1254, no reinado de D.  Afonso III , realizaram-se as Cortes na cidade. No século XIV, D. Dinis restaurou o castelo, que tinha sido construído no século XII, para residência real. O castelo, localizado numa colina no centro da cidade, continua a ser um dos principais elementos caracterizador da cidade.

"Refere a lenda, que (em 1142) achando-se acampado o exército cristão sobre uma “eminência” vizinha, à qual ainda hoje chamam Cabeço d'el Rei, aparecera em cima de um grande pinheiro, que se erguia entre o arraial e o castelo, um corvo, que não cessava de grasnar. Ordenado o assalto, redobrou de tal modo o corvo os seus movimentos e gritos, que os portugueses tomando isto por um feliz agoiro, investiram a fortaleza com tão incrível valor e confiança, que apesar de bem defendida, assessoraram-se dela em breves momentos. Em memória desse sucesso veio tomar Leiria por brasão de armas um escudo de prata coroado por um castelo sobre campo verde, colocado entre dois pinheiros, cada um com o seu corvo em cima; e na parte superior do escudo duas estrelas de oiro" in I. de Vilhena Barbosa, "As Cidades e Vilas da Monarquia Portuguesa que tem brasão de armas", Vol II, pp12-18, Lisboa 1860"

O primeiro Visconde de S. Sebastião é de Leiria. onde teve um solar localizado no Terreiro, mas com casa e propriedades nas Cortes, onde nasceram quase todos os seus 10 filhos.

Leiria é uma cidade portuguesa com uma população de 50.000 pessoas. A cidade está dividida em 6 freguesias, e a o município (563,85 km2) , no seu todo abriga uma população de cerca 120.000 cidadãos e 29 freguesias. Leiria está localizada a 150 Km a norte de Lisboa e é sede do distrito do mesmo nome. O Lis e  o seu afluente Lena são os seus principais rios.

 

 

Vilhena Barbosa refere ainda que Gaspar Barreiros (o nosso antiquário como ele escreve) pretende que existiu um lugar próximo de Leiria [o Colipo], chamado agora de S. Sebastião [do Freixo], tendo em atenção as muitas ruínas de edifícios antigos que se viam por lá antigamente. Refere ainda que Leiria (em 1860)  contava com cerca de uns 26000 habitantes !


De S. Sebastião do Freixo são os antepassados do 1º Visconde de S. Sebastião. Seu bisavô, António Henriques  (nascido por volta de 1735) era o proprietário da Quinta de S. Sebastião, de que ainda existe uma entrada.

 "Leiria tem um rio que corre para cima, uma torre que não tem Sé, uma Sé que não tem torre e uma Rua Direita que o não é". (Rima Popular) "

 

 

Leiria berço de personalidades

 

Leiria foi berço de personalidades notáveis: Tomé Pires, o célebre boticário (séc. XV); Manuel Carreia Matoso (séc. XVII), lente de Medecina; Francisco Rodrigues Lobo, poeta e prosador; D. Pedro Vieira da Silva, magistrado e prelado (secretário de Estado de D. João IV); D. Fr Patrício da Silva (ver foto ao lado e que é antepassado de Virgínia da Costa Guerra, esposa do 1º proprietário da Vila Portela), que nasceu em 1756 nos Pinheiros, foi criado no Convento dos Agostinhos em Leiria, maçon (era chamado de D. Patrício, Patife Pedreiro !),  foi Bispo de Castelo Branco (1818), foi Arcebispo de Évora (1819), Leão XII elevou-o a Cardeal em 1827,  tomou posse como  7º Cardeal Patriarca de Lisboa em 1824. Foi Ministro da justiça, de 14 de Maio de 1824 a 15 de Janeiro de 1825, Membro do Conselho de Regência depois da morte de D. João VI e  Vice-presidente da Câmara dos Pares em 1826;

O Cardeal é tio-tetra avô do 2º proprietário da Portela, neto do 1º Visconde de S. Sebastião

 

os poetas Fernão Rodrigues Lobo Soropita, António da Costa Santos, António Xavier Rodrigues Cordeiro, Acácio de Paiva e Afonso Lopes Vieira  (autoretrato à esquerda e que tem ligações familiares com a família Charters d’Azevedo pois o seu treta-avô, Manuel Henriques, era o igualmente o bisavô do 1º proprietário da Portela) João Lopes Soares (pai do Dr Mário Soares e com casa igualmente nas Cortes que hoje é a sede da Casa- Museu  Dr. João Soares), pedagogo e autor do Atlas de Portugal por onde estudaram todos os alunos dos anos 50s  e grande lutador contra a ditadura do Estado Novo,

Lino António (1898-1974), representado numa foto  dos anos 20s, à direita, artista plástico notável (que, por exemplo, retratou  Maria Glória Costa Pereira - ver figura abaixo à esquerda -  sogra do 3º proprietário da Vila Portela), e por  último Eça de Queirós, nomeado administrador do Concelho em 1870, encontrou em Leiria a inspiração para o "Crime do Padre Amaro". Em Leiria ainda escreveu  ainda "O Mistério da Serra de Sintra" de parceria com Ramalho Ortigão.  

Em Leiria foi criado o primeiro Duque de Bragança, D. Afonso, que nasceu no castelo de Veiros no Alentejo e que foi filho bastardo do Rei D. João I. Reuniram-se duas vezes as cortes em Leiria: no reinado de D. Afonso III em 1254; e no de D. Duarte em 1437. Estas últimas foram convocadas "para se tratar dos meios de libertar o infante D. Fernando, então cativo em Fez". E muito mais se pode dizer de Leiria, mas tal não é o objectivo desta "página".

Leiria recebeu o seu primeiro foral em 1142, bem como o seu título de vila. D. Sancho I outorgou novo foral em 13 de Abril de 1195. D. Afonso II confirmará os privilégios de Leiria em 1214 e 1217, e em  1 de Maio de 1510, D. Manuel  I, concede-lhe um novo foral.

 

As Armas de Leiria

 

Armas da Cidade de Leiria - Escudo de ouro, um castelo de vermelho, aberto e iluminado de prata, acompanhado de dois pinheiros de verde, frutados de ouro e sustidos de negro, tudo saíndo de um terrado de verde realçado de negro. Os pinheiros rematados cada um por um corvo de negro, voltados para o centro. A torre central acompanhada em chefe de duas estrelas de oito raios de vermelho. Em contra-chefe, três faixetas ondadas de prata e azul. Coroa de mural de prata de cinco torres. Listel branco com os dizeres : " CIDADE DE LEIRIA ", a  negro. (Publicada no Diário da República, III Série de 11/08/1987). Ao lado o estandarte da cidade com as armas.

 


A povoação das Cortes (freguesia de Leiria)

 

 

A casa que a família Henriques de Azevedo possuía na povoação das Cortes remonta ao século XVIII sendo nela que residiam permanentemente.  Nela integravam-se celeiros, adegas e lagares, constituindo uma das casas agrícolas mais importantes da encosta poente e sobre o rio Lis. Nesta casa nasceram quase todos os filhos do 1º Visconde de S. Sebastião. Este conjunto,  tendo sido herdado por um dos filhos do 1º Visconde de S. Sebastião, o José,  manteve-se indiviso, até ao início dos anos 40 do século passado; depois por sucessões e vendas nos anos 50, foi fragmentado, restando hoje algumas partes e sinais do primitivo conjunto. Nos Anais do Município de Leiria, de João Cabral, reeditados em 1993 (Vol I) encontram-se referências  à substituição de uma estata estreita que ligava Leiria às Cortes, no lugar dos Frades, por outra mais ampla e que tal foi possível pela doação (em 1853) de um terreno da Quinta de Vale de Lobos pelo Visconde de S. Sebastião, José Maria Henriques de Azevedo. Igualmente o pai do Visconde, Luís Henriques de Azevedo bem como António Xavier Rodrigues Cordeiro, Inácio Xavier de Figueiredo Oriol Pena (Quinta de S. Venâncio) e Margarida Monteiro doaram, em 1858, para a construção da mesma estrada, respectivamente, 200.000 reis, 30.000 reis, 50.000 reis e 50.000 reis. A estrada só ficou concluída em 1868

 

Ao lado as armas da freguesia das Cortes, pertencente ao distrito de Leiria -

Escudo de azul, uma roda de azenha de prata, realçada de negro, movente de um pé de água ondado de prata e azul; em chefe, à dextra, uma gaiola de ouro carregada de uma coroa aberta do mesmo e à sinistra um livro aberto de prata, realçado de vermelho e carregado de uma coroa de louros verde. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco com a legenda a negro, em maiúsculas: “CORTES".

Sobre as Cortes ver: "RE CORTES do Jornal daí - as Cortes da pré-história à actualidade, estudos de história. património, cultura, religião, toponímia e etnografia" Ed Jornal das Cortes, 1997.

 

 

Muitas foram as figuras que, pelo seu trabalho ou pelas suas atitudes, contribuíram para que a freguesia das Cortes fosse o que é hoje. Sendo impossível enumerá-las todas, enunciamos pelo menos aquelas cuja actividade nos parece que foi decisiva:

 

Rei D. João III - Emitiu em 31 de Maio de 1542 uma Carta Régia concedendo licença para a realização do Bodo da Senhora da Gaiola, como já era costume antigo fazer-se, e para o respectivo peditório, estipulando o destino das esmolas.

 

D. Brás de Barros – 1º Bispo de Leiria, erigiu em 1550 "a ermida de N. S.ª da Gaiola, do lugar das Cortes, como em freguesia".

 

António Xavier Rodrigues Cordeiro (1819-1896) – Escritor historiador, professor, jornalista e político, nascido nas Cortes. Bacharel em Direito, fundou o periódico "O Trovador" e um dos primeiros jornais de Leiria, "O Leiriense" (1-7-1854). Colaborou em muitos outros periódicos, escreveu uma série de obras literárias, foi administrador do Concelho de Leiria e promotor da nova estrada da cidade para as Cortes. Deputado a duas Legislaturas, foi ainda Redactor da Câmara de Deputados. Está sepultado na igreja das Cortes.

 

D. Pedro de Castilho – Também Bispo de Leiria, "levantou em freguesia a dita ermida" no ano de 1592, confirmando o acto provisório de D. Brás de Barros

 

D. Dinis de Melo – Ainda Bispo de Leiria, mandou construir, entre 1627 e 1636, a capela de Santa Marta da Reixida.

 

Diogo Gil - Alegado navegador, fundou a capela particular de Nossa Senhora do Monte, em 1550, em cumprimento de um voto por ter sido salvo de um naufrágio.

 

D. João Moreira de Noronha e Meneses - Licenciado e clérigo do hábito de S. Pedro, ligado à família dos Marqueses de Vila Real, detentor de brasão e morador na sua Quinta de Santa Bárbara, na Amoreira, onde fundou, em 1669, uma capela com a mesma invocação e onde se encontra a sua lápide funerária.

 

Adriano Xavier Lopes Vieira (1846-1910) – Nascido nas Cortes casou-se com Ana Bárbara Charters Henriques d'Azevedo, filha do 1º Visconde de S. sebastião, e irmã do 1º proprietário da Portela. Doutorado pela Faculdade de Medicina de Coimbra, viria a ser ali professor Catedrático. Cumulativamente foi naturalista adjunto do Museu de História Natural. Foi ainda Deputado e Conselheiro de Estado. São-lhe conhecidas pelo menos 20 obras escritas, nomeadamente o "Manual de Medicina Legal".

 

Afonso Xavier Lopes Vieira (1849-1933) – Bacharel em Direito, natural das Cortes, exercia a advocacia e o jornalismo. Foi o fundador do semanário "Distrito de Leiria" (27-10-1860) e escreveu várias obras. Foi casado com Mariana Lopes Azevedo cujo bisavô, Manuel Henriques, era o mesmo que o do Eng. Roberto Charters Henriques d'Azevedo, 1º proprietário da Portela.

 

 

 

José Lopes Vieira (1862-1907) - Bacharel em Filosofia e Engenheiro Silvicultor por uma universidade francesa, onde depois foi convidado a leccionar, deve-se-lhe a correcção do leito do rio Lis, de que o Marachão, em Leiria, é a parte mais visível. Natural da Abadia, publicou diversos trabalhos, nomeadamente, o "Projecto de Revisão do Ordenamento da Matta Nacional de Leiria".

Afonso Lopes Vieira (1878-1946) – Nascido em Leiria, tinha residência também nas Cortes, em S. Pedro de Moel e em Lisboa. Poeta virtuoso e de rara sensibilidade, deixou uma obra vastíssima que foi da Campanha Vicentina à edição  monumental de "Os Lusíadas", de Camões. Converteu em português obras clássicas, foi pioneiro da fotografia e do cinema e escreveu inúmeros textos para serem musicados. A literatura para crianças foi sua preocupação, bem como algumas adaptações, reconstituições e traduções. Reeditou Rodrigues Lobo e foi redactor e fundador da revista literária "Lusitânia" de que tomou a direcção D. Carolina Michaelis de Vasconcelos. Deixou a sua vasta biblioteca (que incluía a do tio-avô, Rodrigues Cordeiro) à cidade de Leiria.


João Lopes Soares (1878-1970) – Já mencionado acima, era natural do Arrabal, cedo passou a viver nas Cortes e depois em Lisboa. Ordenado sacerdote a contra gosto, solicita e obtém do Papa Pio XI a anulação das ordens eclesiásticas em 1927. Ministro das Colónias em 1919, Deputado por Leiria, foi também administrador do Concelho e Governador Civil do Distrito da Guarda. Governador Civil foi-o ainda dos Distritos de Braga e de Santarém. Fundador do Colégio Moderno, em Lisboa, por onde passaram muitos resistentes ao regime do Estado Novo, escreveu várias obras didácticas, no domínio da Geografia e da História. Era o pai do Dr.Mário Soares . Sepultado no cemitério das Cortes, era amigo afeiçoado da população da freguesia, em especial da sua Filarmónica, a ele se devendo as diligências para a execução da estrada da Abadia à Senhora do Monte. A sua casa é hoje a Casa Museu Dr João Soares.

 

P.e Bernardo Alves Pereira (1885-1918) – Natural da Abadia, professou na Ordem Franciscana em 1902, tendo sido ordenado em 1909. Teólogo pela Universidade de Friburgo (Suíça), veio a ser professor em Vigo (Espanha), onde faleceu, com 33 anos. Postumamente foi editada em livro a sua tese de doutoramento.

 

José Marques da Cruz (1888-1958) – Nasceu em Famalicão e formou-se em Direito, em Coimbra, onde ainda escreveu três obras. Em 1912 emigrou para o Brasil e por lá ficou definitivamente, continuando a escrever, sobretudo poesia, mas dedicando-se essencialmente ao ensino em vários colégios e na Universidade de São Paulo. Ele próprio fundador de alguns colégios, foi também director da revista "Castália" e colaborador na revista "Filologia Portuguesa". O soneto "Lenda do Lis e Lena" é o seu trabalho mais famoso.

 

P.e José Alves Pereira (1889-1974) – Nascido na Abadia, professou em 1906 também na Ordem Franciscana, ordenando-se em 1912. Entre outros cargos, foi o Superior do Convento Franciscano da Portela, em Leiria. Fundador e grande impulsionador da União Missionária Franciscana, deve-se-lhe também a fundação do jornal "Missões Franciscanas".


Américo Cortez Pinto (1896-1979) - Nasceu em Leiria, mas fez da sua Quinta de Santo António do Freixo, entre o Alqueidão e as Portelas, um dos mais belos recantos sociais e culturais, ali privando com diversos amigos, entre os quais se contava Hernâni Cidade. Médico de profissão, o seu nome ficou sobretudo ligado à obra "Da Famosa Arte da Imprimissão", entre outras de carácter poético e ensaístico.

 

D. José Pais de Almeida e Silva (1899-1969) Conde da Bahia e Visconde de Oliveira dos Arcos - Musicólogo, autor da famosa "Balada do Encantamento", era natural de Vagos, vivendo nas Cortes com D. Maria Isabel Charters de, com quem casou e de quem obteve a inspiração para aquela balada. Com vários cursos técnicos, estudou também música e foi regente da Tuna Académica e do Orfeão Académico de Coimbra. Como compositor concebeu numerosos temas musicais, tendo sido o responsável pelo Orfeão de Leiria a partir de 1948. Era o pai do escultor Charters de Almeida.

 

P.e Artur Alves Pereira das Neves (1908-1988) - Natural das Cortes, professou na Ordem Franciscana em 1926 e ordenou-se em 1933. Dedicou-se ao ensino e à vida missionária, visitando as colónias portuguesas da Califórnia e das Bermudas e exercendo em Moçambique. Traduziu do inglês quatro obras e faleceu no Convento da Portela, em Leiria.

 

P.e José Carreira (1912-1983) - Nascido nas Quintas do Sirol (Pousos), o P.e José Carreira foi pároco das Cortes de 1957 a 1966. Deve-se-lhe a construção da nova residência paroquial e a fundação do primeiro periódico das Cortes, "Águas do Lis", cujo nº 1 saíu em Fevereiro de 1963, terminando em Maio de 1964, não indo, pois, além das 16 edições.

 

Xico Gaio ou Francisco José Vieira de Sousa (1945-1983) - Desenhador talentoso e pintor, nasceu nas Cortes, tendo falecido num acidente na Senhora do Monte quando contava apenas 38 anos. Foi ele quem estimulou a grande onda de artistas com que as Cortes passou a contar a partir dos anos 80, podendo considerar-se o pioneiro das artes nas Cortes.


 

E mais recentemente, Charters de Almeida (escultor) com uma foto recente ao lado, Joaquim Botelho de Sousa (escultor), Rui Fernandes (escultor), Fernando Marques (pintor e escultor), Mário Sousa (ceramista), Silva Resende (escritor), António Cordeiro Gonçalves (músico), Anolfe (cronista e poeta), Manel Moleiro (poeta), Rui Pessoa (poeta e pintor), Manuel Marques da Cruz (filólogo, poeta, ficcionista e ensaísta), Carlos Fernandes (agrónomo, jornalista, publicista e investigador), Fernando Rodrigues (pintor e escritor), Jú Santos (poetisa), Rogério Bastos (ceramista, pintor e poeta), Gonçalo Fernandes (fotógrafo), Teresa Jordão (pintora), José Maria Frazão (pintor, desenhador e poeta), Jorge Vieira (pintor), José Carlos Carreira (pintor e poeta), Justino Marques (pintor), Ricardo Santos (desenhador), etc., etc.

 

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Vista da cidade de Leiria e do seu castelo, da Vila Portela, em 1909. Vê-se, em primeiro plano,  a vinha recentemente plantada na parte baixa da Vila Portela e o muro de suporte que dá para a Rua Machado dos Santos/Av. José Jardim




As Invasões Francesas em Leiria

 

Daniel Lacerda, (ver artigo publicado num destacável do Jornal de Leiria, nº 1095, de 7.7.2005) na sua investigação sobre as "Acções das tropas napoleónicas na região de Leiria", relata assim alguns acontecimentos passados em Janeiro de 1811, descritos por uma comissão de militares franceses, seis anos depois:

O relato, muito realista, refere ainda que "na crise fatal em que o exercito estava reduzido, a necessidade mais imperiosa, a fome, fazia-se constantemente sentir. 0 soldado acusava os habitantes do seu cansaço e sofrimento (...). Portugal tornou-se um teatro repelente de assassínio e de car­nificina".

A situação do exercito francês, longe de melhorar, tornava-se cada vez mais difícil. A raridade de viveres aumentava de dia para dia. A região de Alcobaça e de Porto de Mós haviam feito viver durante algum tempo o 2° e 8° corpos; em breve essas zonas se esgotaram e foi necessário procurar os viveres mais longe. Os destacamentos avançaram primeiro ate ao Lis, percorrendo toda a região entre o rio e o mar até a altura de Leiria. Pequenos depósitos intermediários se criaram a beira do Lis, do Soure e do Mondego. Cada corpo se encarregava de ai manter um pequeno numero de homens. Cada parte dessa tropa possuía funções diferentes: uns estavam constantemente ocupados a examinar os campos, os montes, os lugares mais escarpados, as ilhas no meio dos rios, com vis­ta a descobrir o que os habitantes haviam escondido, e transportavam-no para o deposito. Ai, os outros encarregavam-se de encurralar o gado, de moer o grão, cozer pão e biscoito e de destilar aguardente, já que o vinho era difícil de transportar

As Invasões Francesas (1808-1812), a maior tragédia de Por­tugal nos últimos 200 anos, com o seu cortejo de mortes e devastação, também deixaram marcas no distrito. A violação dos túmulos de Pedro e Ines, no Mosteiro de Alcobaça, pela soldadesca do marechal Drouet d'Erlon, ainda fere os olhos e a memória de quem os visita. Mais trágico ainda, o desastre da Ponte das Barcas, no Porto, continua a ser religiosamente lembrado pelo povo da Ribeira. 0 "Couseiro" regista uma estatística de cerca de 29 mil mortos entre 66.500 habitantes do Bispado de Leiria. Saques, incêndios e morticínios selaram a passagem dos franceses pelo distri­to. Mas também houve insurreição, luta e resistência contra o invasor.

Incrustada no muro que separa a antiga rua dos Mártires (hoje rua Dr João Soares) da igreja da Portela, em Leiria, uma placa gasta pelo tempo, ali colocada em 1929, simboliza mais o abandono a que tem sido votada do que a sua razão de existência. Aquele pedaço de pedra suja, com caracteres meio apagados, homenageia "Aos bravos leirienses caídos neste lugar em defesa da Pátria em 5 de Maio de 1808 e aos mártires aqui trucidados nesse dia pelos fran­ceses do general Margaron como homenagem  e valor  - 5.7.1929 . A LN 26 de Maio ".

João José do Souto Rodrigues, "bacharel em leis" em Leiria, num dos raros documentos da época descreve o avanço das tropas francesas, avaliadas em mais de quatro mil homens, pela estrada real, vindas da Batalha, e o cerco a cidade do Lis onde terão assassinado 121 pessoas.

Com a ala direita a marchar pela Mourã, e a esquerda pelo Barro Ruivo (passando pela Cos­ta do Castelo), o avanço, em pinça, conheceu alguma resistência na Portela (local assinalado pela dita placa) quando a cavalaria, protegida por bocas de fogo colocadas no Alto Vieiro, investiu con­tra os defensores de Leiria.

"Marcharam pois essas tropas  assim divididas contra nós fazendo fogo contínuo para todos os lados; mas aos poucos dos nossos também empregaram os seus tiros, de sorte que não foi muito pequeno o numero de inimigos mortos", refere Souto Rodrigues. Segundo o cronista, a desproporção de forcas ditou a sorte da contenda, "tendo morrido na acção 40 homens nossos, como atestou o pároco que assistiu ao enterramento".

Findo os combates, os france­ses, com a imoralidade que caracteriza um exercito de ocupação, rivalizaram uns com os outros em selvajaria.

Souto Rodrigues evoca a morte de "mulheres, crianças, homens aleijados e desarmados", a perseguição dos que "iam fugindo pelos arrabaldes", a pilhagem de casas e do Convento de S. Francisco, tendo sucedido o mesmo "na quinta de Carlos Barba ao Seixal (um fidalgo da cidade), aonde, além de terem morrido ás mãos dos inimigos outras nove pessoas, ficaram feridas algumas mais que depois morreram"

Os saques e os assassínios não ficaram por aqui. Intitulado "Memo­ria dos mais notáveis acontecimentos que houve em Leiria e seus contornos", oferecido por Souto Rodrigues "ao publico da mesma cidade", o folheto conta como os homens foram levados para o sitio de S. Bartolomeu (entre a actual prisão-escola e o edifício da Câmara) onde "os picaram por todo o corpo a espada e a baioneta, como disseram os que não morreram logo nesse acto".

Descrita também e a "vileza de espírito" do general Margaron que "se atreveu a manchar a sua espada no sangue de um paisano dos nossos, que por inércia foi apanhado sem ter largado a arma na praça junto as grades da cadeia, e nesse estado foi que o dito gene­ral o picou com a espada querendo atravessá-lo, e como não o fizesse lhe mandou dar fogo, de que morreu".

Finda a mortandade, os fran­ceses, que instalaram o quartel general no Paço Episcopal, correram ao saque da cidade e arra­baldes. O que também impressionou o cronista foi terem roubado os vasos sagrados, os sacrários, e terem entornado pelo chão, e feito consumir sacrilegamente as Sagradas Formas nas igrejas das freguesias de Azoia (onde transformarão a igreja em estrebaria), Parceiros, do Arrabalde, na do Convento de S. Francisco, e em outras nas vizinhanças desta cidade".

A 6 de Julho, um dia depois de ter entrado na cidade, o general Margaron, após ter ordenado o enterramento dos mortos, retirou-se para o Alto Vieiro, receando um contra-ataque das milícias portuguesas.

As atrocidades contra o povo de Leiria durante a primeira invasão ficaram assim registadas num folheto de 20 paginas, a que o Jornal de Leiria teve acesso, graças a diligência de uma jovem livreira, Liliana Queirós, da Marinha Grande, cuja presença nas feiras de velharias da região e uma constante

 

Mais uma história sobre o que se passou em Leiria

«3 de Outubro de 1810 — Marchou toda a divisão pelas quatro horas e meia da manha, e veio ficar a campo ao pé de Parceiros a saída de Leiria a parte direita, na distancia de um pequeno quarto de légua. Ao passar pela cidade, nem uma só pessoa conhecida encontrei, e menos me foi possível obter noticias; somente o meu camarada me participou que tinha ali ficado o cónego Arnaut. Parecia incrível como em um instante se despovoou a cidade! N'este dia nada se soube marcha dos franceses em nosso seguimento, e unicamente ouvi dizer que se havia interceptado uma carta de Massena, datada de 25 de Setembro, em que dizia, que nunca tinha feito a guerra em um país semelhante onde não achava uma pessoa nem para levar uma carta nem para servir de guia; que ele, n'aquelle dia, estava perto de uma altura, vencida a qual contava entrar Coimbra; e que a causa que havia para todo o povo fugir, era a de terem os ingleses assassinado muita gente, para que assim o fizessem por forca. — D'esta carta concluo, que quando Massena estava tão desanimado, que faria depois da perda que experimentou ao tentar vencer altura do Bussaco! — N'este mesmo dia, na passagem das tropas pela cidade, sucedeu grande barulho, metendo-se homens e mulheres que as acompanhavam pelas casas a roubar e foi então que lord Wellington mandou processar um soldado inglês, um paisano e duas mulheres

«4 — N'este dia permanecemos na mesma povoação de Parceiros, e a divisão toda ao pé e estava-se em duvida, se o inimigo continuava avançando sobre a nossa marcha. Dizia-se que tinha ido já á Figueira onde não encontrou senão os últimos doentes que para ali tinham si mandados. A ordem para a divisão, n'este dia, anunciava que em breve voltaríamos em alcance do inimigo. , j

«5 — De manhã cedo recebemos ordem de marcha. pois que os franceses se tinham decidido a avançar. N'esta marcha, sendo tão regular quanto devia ser, recebemos elogios dos dois marechais que por nós passaram. — Soubemos que na madrugada tinha havido um choque entre a nossa cavalaria e a dos franceses, uma légua antes de Leiria. — Fizemos alto em um campo cerca dos Carvalhos.»

«6— Tivermos n'este dia por noticia, que o resultado do combate da véspera fôra perderem os franceses um coronel e dois capitães prisioneiros, e alguns soldados feridos, ficando um oficial inglês prisioneiro e outro ferido. — Continuamos a marcha ate Rio Maior, caminhando cinco léguas; chegamos ali de tarde, e permanecemos ate o outro dia.»

(in diário de um oficial português transcrito a pags 244  de “Excertos Históricos e Colecção de Documentos relativos á Gerra denominada da Península” por Cláudio de Chaby, Imprensa Nacional, 1871, Lisboa)

Na mesma publicação se relata que o coronel Nicolau Trant que comandava um dos "corpos volantes mandados pelos generais Miller e Manuel Pinto Bacelar, mediante activas e especiais operações tinham os franceses de Massena em quasi completo bloqueio, não lhes permitindo comunicar com o interior do país e com o vizinho Reino de Espanha", a " 7 de Outubro de 1810  tomou a cidade de Leiria. Nesse mesmo dia foi tomada Coimbra pela Artilharia 4º, Cavalaria 6, 11 e a Guarda Real da Polícia.

FONTES FRANCESAS

Daniel Lacerda, um investigador de Monte Real há mais de 30 anos radicado em Paris, recuperou, em arquivos franceses, numerosos documentos manuscritos sobre a passagem dos exércitos de Napoleão pelo distrito. 0 resultado das pesquisas constituiu a sua intervenção no "II Colóquio sobre a Historia de Leiria e da sua região", cujas actas a autarquia publicou em livro, em 1995.

0 autor começa por retratar a marcha das tropas anglo-lusas comandadas por Wellington em direcção as Linhas de Torres, em Outubro de 1810, a destruição de tudo o que podia ser útil ao inimigo e à perseguição movida pelas tropas francesas a retaguarda aliada um pouco antes de Leiria.


"A cidade (Leiria) estava deserta como Viseu e Coimbra, as casas encontravam-se revolvidas com os moveis quebrados; o vinho escorria pelas ruas; não se encontrava ninguém a quem se pudesse falar e as patrulhas que percorriam os campos e aldeias trouxeram a noite apenas alguns camponeses cujas confissões se contradiziam", escreve Massena, comandante em chefe do exército francês durante a terceira Invasão, citado por Daniel Lacerda.

Preocupado com a desumanidade dos seus homens, pois temia ser prejudicial a sua própria estratégia, aquele general recorda que "ao chegar a Leiria o exercito esta­va esgotado de cansaço", devido a chuva e ao mau tempo. E lamenta que "os soldados, exasperados pelo sofrimento e ódio que inspiravam", se entregassem "a pilhagem e a destruição, perante a indiferença dos oficiais".

A barbárie francesa responderam com actos de bravura as forcas anglo-lusas e a guerrilha popular. Daniel Lacerda cita um relato do general Loison, o famoso "maneta", que fala de solda­dos franceses feitos prisioneiros após uma incursão nas localidades de Porto de Mos, Cela e São Martinho, em finais de Janeiro de 1811.

0 mesmo general, numa carta "bastante alarmista", previne Massena sobre as "perdas consideráveis" sofridas pelos seus homens entre Alcobaça e o Mondego. E conclui: "Destacamentos de diversos corpos instalam-se nas aldeias e todos os dias se deixam surpreender, quer pela coluna móvel inglesa, quer pelos camponeses. Os relatórios que me foram feitos dão conta da perda de uma centena de homens por dia. 0 incêndio e o assassinato atingem o alvo".

"Le Moniteur Universel", jornal oficial de Napoleão, na sua edição de 20 de Janeiro de 1811, publica a seguinte notícia, que diz ter sido tirada de uma carta de Wellington: "Os inimigos (os franceses) incendiaram algumas casas em Monte Real, no distri­to de Leiria, para vingar a acção dum tenente (inglês), ajudante do general Blunt, o qual havia torna­do nesta vila uma manada de vacas e morto dois soldados fran­ceses". Finalmente, vencido no Buçaco e impedido de avançar até Lisboa, Massena decide retirar, tendo chegado a Pombal no dia 9 de Marco de 1811, onde foi derrotado durante uma escaramuça pelas forças de Wellington, tendo incendiado grande número de casas durante a fuga. 0 ultimo recontro entre tropas francesas e forças anglo-lusas na região aconteceu dois dias depois num desfiladeiro, entre Pombal e Redinha, que também foi vitima dos incêndios dos gauleses. A invasão atingiu o distrito de Leiria durante três longos anos. Mas, conclui Daniel Lacerda, "a vontade indomável dos 4 paisanos', a mobilidade das milícias e a acção serena mas de grande eficácia táctica de Wellington contrariaram o ambicioso intento do corso". Só falta evocar o papel desempenhado pela resistência popular.

Artigo escrito por Damião Leonel para um  destacável publicado no Jornal de Leiria (nº 1095)  de 7.7.2005.

 

 

Segundo um texto de 1874, de António Xavier Rodrigues Cordeiro, pag 26 e 27 de “Correspondência de Leiria”  transcrito no “O Mensageiro” nº 1659, pag 4 de 1,9,1949,  o “Gen Maragaron [Barão do Império em 1809  e Governador de Leipzig em  1813] entro em Leiria a 5.6.1808, à frente de 5000 homens para reprimir a cidade que se tinha revoltado contra o governo de Junot e porque na entrada tentaram opor-se-lhe umas centenas de populares mal armados, que se tinham entrincheirado no alto da Portela, e não quiseram render-se, caiu sobre os inconsiderados destroçando-os, e levando á ponta da baioneta quantos encontrou de vante de si. As vítimas desse dia, entre pessoas de todas os estados, sexo e idade subiram a 135.

Voltaram os franceses a ocupar Leiria desde 3 de Outubro de 1810 a 10 de Março de 1811 e nestes 5 meses reinou de novo a devastação, o incêndio e a morte. O bispado, que no princípio de Outubro de 1810 contava com 66.486 almas, não contava no  fim das invasões mais de 37.582. apesar de neste período ter havido 113 nascimentos,

Quer dizer que havia menos de 29.017 indivíduos, e destes tinham sido mortes violentamente pelos franceses 1409. Os outros morreram ao desamparo, ou de doença ou viviam expatriados dos seus bens – tal consta de uma relação que o Bispo D. Manuel d’Aguiar exigiu aos párocos”

 

António X. Rodrigues Cordeiro aponta a seguinte evolução da população de Leiria: no século XIV (D. Dinis)   a população era de         8.500 pessoas. Em 1417  (D. João I )  era  pouco mais de 8.500. Num recenceamento em 1527 D. João III  ) chegava a  10.525. Mas em 1810 já tinha triplicado para 31.588, mas em 1811, devido a doenças após as infasões francesas desceu para 18.386 (de 3.10.1810 a Junho de 1811 morreram violentamente ou por efeito de epidemia 13.749) 

Em 1845 dobrou para 24.904, 1852 eram 32.348, em 1864 35.264 e  em 1869 eram 38.785.    O semanário "O Mensageiro" apontava, em 1940, 68.715 indivíduos vivendo em Leiria.